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‚ÄėHumano, demasiado humano‚Äô √© a obra maior
no combate à metafísica
Katia Muricy

Humano, demasiado humano, de Friedrich Nietzsche.
Tradução de Paulo César de Souza. Editora Companhia das Letras
A opini√£o de Cosima, mulher de Wagner, sobre "Humano, demasiado humano"
do jovem professor Nietzsche, editado em 1878, n√£o deixa d√ļvidas quanto
ao impacto que deve ter causado a Wagner e a sua corte de admiradores.
Em carta à irmã do filósofo, Elizabeth, ela demonstra o seu desprezo,
refletindo cruelmente a opinião do círculo de Trebischen:
"N√£o me fale de ‚ÄėHumano, demasiado humano‚Äô.
A √ļnica coisa de que quero me lembrar ao te escrever √© que teu irm√£o,
em outros tempos, escreveu-me algumas das mais belas páginas que conheço
(...) N√£o lhe quero mal por isso: o sofrimento desorientou-o.
Perdeu o controle de si mesmo, o que explica sua felonia.
( Sua obra) n√£o passa de um sofisma sem brilho, ela d√° pena".

A ruptura com Wagner e com o seu círculo é biograficamente importante.
Em "Ecce Homo", anos mais tarde, Nietzsche lembra como,
j√° no primeiro festival, deixara Bayreuth dolorosamente decepcionado,
pois todas as suas mais caras esperanças de renovação da cultura alemã
pela força da arte de Wagner caíam por terra com a redução do artista às "virtudes alemãs": "Haviam traduzido Wagner para o alemão".

Sabe-se, por uma carta enviada ao bar√£o Seydlitz,
como Nietzsche detestou o "Parsifal":
"√Č mais Liszt do que Wagner; o esp√≠rito da contra-reforma.
Para mim, habituado demais à atmosfera grega, humana,
tudo isso é de um cristianismo limitado demais...não há carne,
e há sangue em excesso ...não gosto das criadas de quarto histéricas".
A ruptura lhe parece um sinal: "Vi que era hora de refletir,
retornar a mim". "Humano, demasiado humano" é este retorno.

Nietzsche avaliar√° o seu livro, anos depois, como "o monumento de uma crise",
observando que nele "cada frase expressa uma vitória",
"com ele me libertei do que não pertencia à minha natureza".
√Č o livro de um "esp√≠rito livre", isto √©, de "um esp√≠rito tornado livre,
que de si mesmo de novo tomou posse".
As circunst√Ęncias biogr√°ficas n√£o s√£o, por√©m,
determinantes para o livro. O afastamento de Wagner,
por mais importante que afetivamente tenha sido,
√© antes conseq√ľ√™ncia de uma transforma√ß√£o radical do pensamento de Nietzsche.
Ele procura agora uma express√£o nova, pessoal,
distante da metafísica de seus mestres alemães.

Em "Humano, demasiado humano" é a ciência,
a reflexão crítica e o rigor metódico que tomam o lugar
das fórmulas schopenhauerianas do período juvenil.
N√£o h√° mais mestres, mas iguais, e franceses.
Nietzsche se quer aqui um "cientista", um Aufklärer,
o que é sugerido desde a dedicatória a Voltaire
- "um dos maiores liberadores do espírito"
- o grand seigneur com o qual agora ele se identifica.
Para alguns, o livro abriria um outro período no pensamento de Nietzsche,
radicalmente distante do primeiro. Com efeito,
o homem √© aqui o centro das indaga√ß√Ķes,
o que determina uma espécie de transformação de seu pensamento em uma antropologia,
a vida agora compreendida biologicamente e n√£o metafisicamente.
A figura principal de "Humano, demasiado humano" é a do cientista,
o homem que, ao contr√°rio do artista, n√£o se deixa confundir
pelos del√≠rios da metaf√≠sica. √Č o homem que pretende uma cr√≠tica que,
"afiada sob os golpes de martelo da cogni√ß√£o hist√≥rica (...) possa um dia, em algum futuro (...) servir como machado para cortar pela raiz a ‚Äėnecessidade metaf√≠sica‚Äô da Humanidade".
No conflito que encontra entre a vida,
em seus componentes ilógicos e injustos,
e a ciência, como sereno saber crítico,
Nietzsche toma partido da ciência, isto é, da desmistificação do caráter ilusório da vida e, surpreendentemente para os leitores de 1873, de "O nascimento da tragédia",
ataca a vida como poder de falsificação.

Se o homem √© o centro da an√°lise, a no√ß√£o de homem n√£o √©, como no racionalismo, algo dado de antem√£o, mas o produto de circunst√Ęncias hist√≥ricas. Hist√≥rica e anal√≠tica, a pesquisa se quer, por estas exig√™ncias, "cient√≠fica". √Č importante, contudo, entender o que Nietzsche est√° chamando aqui de "ci√™ncia", bem como o uso estrat√©gico que faz do termo para a estrutura√ß√£o do seu objetivo maior de desmistifica√ß√£o dos ideais metaf√≠sicos atrav√©s de uma an√°lise psicol√≥gica da motiva√ß√£o dessa cren√ßas.

Em "Ecce Homo", referindo-se a "Humano, demasiado humano", Nietzsche escreve: "Onde voc√™s v√™em oisas ideais, eu vejo coisas humanas, ah, somente coisas demasiado humanas!" As coisas pretensamente superiores ao humano n√£o passam, na verdade, de ilus√Ķes totalmente humanas. A√≠ ele tamb√©m escreve: "Olhamos todas as coisas com a cabe√ßa de um homem e n√£o podemos cortar esta cabe√ßa ... Desde que se desvele estes m√©todos como o fundamento de todas as religi√Ķes e metaf√≠sicas existentes, j√° se as refutou".

Uma psicologia das profundezas que destrua a metafísica
parece ser o objetivo principal de Nietzsche em "Humano, demasiado humano".
Todos os fantasmas humanos demasiado humanos poderão ser dissipados por essa psicologia cética. Esta crítica , Nietzsche a considera uma guerra fria,
sem pólvora, sem pathos, mas capaz de congelar os ideais.
Se há, na figura dos "espíritos livres", para o qual o livro se dirige,
como deixa claro o seu subtítulo, uma adesão ao espírito da Aufklärung,
há também diferenças importantes. Tanto como a ciência reivindicada
pelo método crítico de Nietzsche não pode ser confundida com uma ciência positiva,
tampouco o "espírito livre" encarna o homem das Luzes em sua fé profunda na razão e no progresso. Ele é o viajante sem rumo,
que retoma a força original da filosofia como indagação constante,
como err√Ęncia.

Se o "espírito livre" é o desmistificador inclemente,
√© tamb√©m um esp√≠rito ir√īnico e humorado
que não leva a sério a razão em suas conquistas e progresso,
mas em sua dimens√£o problematizadora e auto-problematizante.
Da ciência, o que Nietzsche toma é o caráter incansavelmente experimental,
ou seja, o movimento perpétuo da crítica. Assim, se a vida é desmistificada
pelo viés da psicologia e da biologia,
é para que se possa livrá-la a seu sentido de experiência constante.
Viver é, para Nietzsche, conhecer, ou seja, um "ousar experimentar".
KATIA MURICY é professora do Departamento de Filosofia da PUC-RJ


 Escrito por BŠrbara Paz ŗs 15:57
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