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Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teu ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
Escrito por Bárbara Paz às 21:09
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Reflexão
Aniversário da cidade, festa na Paulista, tráfego nas avenidas e brilhantina nos viadutos... Daqui do centro escuto o ruído das sirenes e das lamentações. Eu, em estado febril tento entender os sintomas causado pela melancolia do dia a dia. Olho com freqüência minhas mãos, sinto a elasticidade da pele, a textura, os movimentos dos meus dedos, observo-as atentamente. Elas me dão a noção do tempo. Foram com elas ( as minhas mãos) que cheguei onde estou. ( hoje especificamente sentada em frente a um computador).' Essas longínquas mãos deram a dimensão do meu espaço no mundo... Carregaram areia, cimento e muita "água". Fecharam portas e sacudiram muitos tapetes. ...Quando me sinto mais velha é através delas que o espelho reflete. São mãos fortes, com dedos longos e veias profundas. Acima da mão – o Pulso- que por tristeza ou sensatez não tem marcas... Mas já foi bastante estudado..."Impressões de desespero em tempos de guerra"... Lembro-me talvez de tudo que já peguei, de tudo que já deixei, de tudo que só olhei... Minhas mãos sempre foram expressivas( até demais)... traduzia nelas a incompreensão (do então ainda não verborrágico) entendimento com a vida. Não conseguia me comunicar através das palavras, então gesticulava os dedos, os punhos, torcia as mãos para tentar explicar tal sentimento... Mas acabava me tornando engraçada e inexplicável. Falo hoje delas ( as mãos) pois o envelhecer esta se tornando cada vez mais presente no meu dia a dia... Penso nos trinta e nos trinta e cinco, nos cinqüenta e nos quarenta e cinco... O que ocorre depois de uma certa etapa da vida? O mar acalma, a correnteza muda de direção e você respira menos, mas com mais intensidade... Os conceitos perante o dia mudam e os da noite apagam... Não existe mais o – Daqui alguns anos vou... Hoje vou, pois amanhã pode não mais existir... A passagem dos trinta é reflexiva ! O amor se torna reflexivo. O trabalho se torna reflexivo. O mundo é uma reflexão! Os valores de uma reflexão se tornam mais caros que a esteira da vida. Ontem gostava de samba. Hoje tenho vergonha de mexer meus quadris na frente de uma platéia sedenta por nádegas. Ontem gostava de dividir meu sorriso...Hoje prefiro escondê-lo . O mundo não esta tão feliz para se sorrir com ele... E sim para ele. O companheiro não é mais aquele que só te acalenta e sim aquele que te reflete. Se o amor não tiver inteligência não dura mais que meia página. O calor humano não nos basta. Temos que ouvir histórias, contar memórias, achar explicativas para sobreviver. ...Ele já não é mais um namorado, é um aliado da nossa vida. Ele tem querer vencer. Estancar a veia...Levantar bandeira. O companheiro é a chama que te mantêm acessa. O reflexo do sol tem que dormir em seus olhos. Pois é assim que a vida te chama ...( assim pelos olhos o amor atinge o coração )... A felicidade consiste entre o estar apaixonado e se apaixonar... Se amar, se cuidar, se zelar... Observar a natureza sobre outro prisma , sobre o que dorme em seu ventre. Ser mãe natureza, realeza, alteza de si mesma. Abandone seu diário. Crie uma passagem entre o papel e o verbal. Comece a sentir... Antes que a vida passe pela janela e você não se de conta que aquele que passa acenando não é sô o vento e sim seus sonhos que se foram.

Escrito por Bárbara Paz às 21:55
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